Emissão de criptoativos: a caminho da inovação estratégica corporativa

Um dos objetivos de futuro das entidades será atrair equipes heterogêneas e perfis com conhecimentos especializados em diferentes áreas

Além de ser o projeto que deu nome à tecnologia blockchain, o Bitcoin é considerada a primeira criptomoeda descentralizada. Uma moeda digital nascida de uma iniciativa de desenvolvimento em colaboração aberta, sem financiamento; respaldada pelo compromisso dos membros anônimos que são a base do sistema de transações e registro (a quem se incentiva com as próprias moedas) e pela confiança de sua comunidade de usuários.

Manter o compromisso e a confiança dependia, portanto, de conseguir que os bitcoins fossem atrativos economicamente. No momento em que a criptomoeda passou a ser aceita como moeda de câmbio (a primeira vez, por uma pizza), disparou seu interesse, uso e cotização.

O sucesso deste sistema incentivou outros projetos de filosofia descentralizada a seguir seu modelo, em especial aqueles que também permitiam a emissão de tokens, identificadores únicos que supõem a representação digital de um ativo, bem como o serviço prestado pela entidade privada que os emite.

Diferentemente das moedas, que são nativas à sua própria plataforma blockchain/DLT, os tokens associam-se a plataformas já existentes que facilitam seu processo de criação e lançamento, majoritariamente Ethereum. Esta função permitiu que em poucos anos se desenvolvesse um mercado de mais de 2.000 moedas e tokens, com uma capitalização atual equivalente à de um grande banco mundial.

Imitando os mercados de valores, muitos projetos tentam captar fundos com uma distribuição inicial de sua nova moeda (pré-minada) ou token, processo conhecido como crowdsale. Articulada normalmente através de uma ICO, este mecanismo de financiamento tipo crowdfunding derivou em ambiguidade legal, em alguns casos, e diretamente em fraude em outros, fazendo as autoridades regulatórias agir.

Para assegurar maior transparência para com o consumidor e investidor, estes criptoativos foram classificados, atendendo à sua finalidade, em três principais tipos:

– Os utility tokens, que supõem um direito de acesso futuro a produtos ou serviços de uma companhia, ao contribuírem para o sistema ou interagir com ele. Embora se possam catalogar como cryptocurrency exchanges, o consumidor não tem como objetivo principal negociar com eles.

– Os security tokens, considerados um meio de investimento, sejam da própria entidade emissora seja dos ativos subjacentes, devem cumprir requisitos legais aplicáveis a títulos-valor. A principal motivação é obter benefício econômico.

– As criptodivisas ou criptomoedas, que apesar de não serem emitidas pelas autoridades centrais correspondentes, são admitidas como método de câmbio. No entanto, deve-se ter em conta que não servem para este propósito devido à grande volatilidade que sofrem. Um tipo particular de criptodivisas com as quais se quer assegurar estabilidade são as stable coins, mantendo a paridade com outro valor externo que as respalde (collateralized): uma moeda fiat, outro bem (commodity), ou outra criptomoeda à qual se associam. Outros métodos prescindem do respaldo de outro valor e utilizam algoritmos e smart contracts para evitarem as flutuações de preço.

Uma vez emitidos, podem passar a listar-se em plataformas onde negociar seu intercâmbio, e adquiri-los para seu uso, custódia, ou transmissão com os mesmos compromissos exigidos por lei para seus equivalentes tradicionais.

Esta tendência regulatória está incentivando grandes corporações de finanças, legal, energia, banca e inclusive bancos centrais, a criar este tipo de ativos. Por um lado, por encontrarem nas criptodivisas um sistema de pagamentos endógeno, rápido e eficiente; e por outro, uma vez que os tokens permitem lançar novos produtos e serviços segundo um modelo mais participativo, que busca envolver as comunidades interessadas para fomentar seu desenvolvimento, reduzindo o risco financeiro e a exposição do conjunto da entidade.

Que benefícios traz às organizações?

A maior rede social e de mensagens foi a última a ter a sua própria moeda digital e a aproveitar suas plataformas para permitir transações entre usuários particulares e negócios. Com as redes vem o comércio, e com o comércio vêm os pagamentos.

Mas são as corporações de longa trajetória industrial, em plena necessidade de transformação de seus modelos operacionais e de negócio, que veem maior potencial nos instrumentos de tokenização, seja para enfrentarem os desafios da digitalização, dos novos tipos de economia ou de uma maior responsabilidade social e ecológica. Para as entidades supõem um meio inovador que permite:

– Adaptar o desenvolvimento de novos produtos e serviços a um ambiente digital e tecnizado.

Associar-se, segundo modelos de investimento compartilhados, com as comunidades de usuários que apostam nos produtos e serviços propostos.

Registrar o impacto de seus produtos e serviços.

Para o desenvolvimento deste tipo de projetos, as organizações devem ter equipes heterogêneas que assumam diferentes papéis (gestão de projetos, de produto, de inovação, especialista blockchain,…) e perfis com conhecimentos especializados em diferentes áreas corporativas (legal, IT, finanças…). Com esta premissa, um dos objetivos de futuro das entidades será dar estas habilidades e conhecimentos à sua organização.

 

José Alberto Pérez
jose.alberto.perez@nae.es

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